Kung Fu Lounge
Thursday, September 16, 2004
 
Here today, gone tomorrow...

johnny

Uma das cenas mais impressionantes de O Verão de Sam, filme de Spike Lee sobre um serial killer que aterrorizou Nova York nos anos 70, fala sobre ser diferente em um ambiente marcado por rígidos mecanismos de controle social. É a rebelião auto-consciente de Ritchie, morador do Brooklyn e descendente de imigrantes italianos, contra o universo repressor que o cerca. Pária entre os seus semelhantes, ele vê naquela gente estranha, novos amigos vindos das áreas mais pobres de Manhatan, uma promessa de fuga. A epifania punk definitiva, deliberadamente chocante, barulhenta e libertadora.

De todos os integrantes dos Ramones, Johnny era o mais discreto. Não atraia as atenções como Joey e nem flertava tanto com as drogas quanto Dee Dee. No entanto, sem ele cenas como as protagonizadas por Ritchie em o Verão de Sam jamais poderiam ter acontecido. Nem no cinema e nem na vida real. Joey era o outsider sensível e romântico, saudoso dos “velhos tempos” do rock’n’roll; Dee Dee o maluco de carteirinha e compositor de mão cheia, capaz de fazer letras brilhantes sobre festas na praia, filmes de terror e gatinhas metaleiras. E Johnny foi o cara que deu forma aos delírios da dupla com seu som de guitarra sujo e poderoso, três acordes menores que se repetem indefinidamente para criar um som único e original.

Ao lado dos Ramones Johnny devolveu ao mundo a noção de que o rock poderia voltar a ser legal. Mesmo sem saber tocar muito bem, ressuscitou do coma um estilo dominado por virtuoses estéreis, músicas de 15 minutos e solos intermináveis, grandes suítes pseudo-eruditas embaladas em sofisticação vazia para as massas. Nada dos Coasters e suas crônicas divertidas sobre o lado obscuro da América, nada do espetáculo GLS avant la lettre de Little Richard com seu penteado Madame Pompadour e piano a 120 km por hora, nada de Jerry Lee Lewis literalmente tocando fogo na platéia, nada de Chuck Berry revirando o blues de cabeça para baixo. Pelo contrário, ser roqueiro nos anos 70 era ser chato, pomposo e banal, hippies tardios abrigados nas ruínas de Woodstock, lendo Senhor dos Anéis, comendo arroz integral e sonhando com fadinhas e duendes, à espera da segunda vinda de Dr.Leary em sua última jornada rumo à Terra Prometida da psicodelia.

Imaginar o mundo sem os Ramones é cogitar que tudo isso poderia existir até hoje. Uma realidade paralela onde as pessoas ainda vivem à mercê da chatice transcendental do rock progressivo e da extravagância irritante da disco music, cenário de pesadelo capaz de dar arrepios no mais insensível dos seres humanos. É imaginar um mundo onde o Yes e John Anderson, com sua voz de ostra com apendicite, ainda vendem discos; onde o espírito de Gloria Gaynor assombra a todos com a milésima oitava versão de I Will Survive; onde é legal gostar de solos de bateria e onde o rock não serve para muita coisa além de dar dinheiro a ególatras que pensam serem Mozart reencarnados. Sem os Ramones e sem Johnny não teríamos o Clash e os Sex Pistols, não teríamos os Dead Kennedys e o Black Flag, não teríamos o Nirvana e o Mudhoney. Sem os Ramones e sem Johnny, todas as bandas do mundo soariam como o Rush.

Johnny costumava dizer que os Ramones não eram apenas sobre música. Eles eram também sobre fazer os garotos sentirem vontade de tocar guitarra. E é isso que nenhuma outra banda é capaz de fazer por você. Afinal, tocar uma música dos Ramones é muito mais fácil e do que decorar as 13 mil notas que Yngwie Malmsteen despeja por minuto. Punk rock é sinônimo de diversão, de tocar apenas por prazer sem compromisso com técnica e sofisticação. Johnny Ramone deve ter sacado isso quando pegou em uma guitarra pela primeira vez. E talvez antes mesmo que Dee Dee tenha tido tempo de gritar “One, two, three, four!” descobriu porque o rock pode ser a mais libertadora das experiências, um remédio eficaz contra as dores do mundo. Seus milhares de fãs e discípulos ao redor do planeta também entenderam o recado, basta ver a quinta onda punk, que mantém o estilo vivo em suas mais diversas vertentes. Johnny Ramone pode ter morrido, mas o seu legado continua. Pelo menos enquanto ainda existirem por aí adolescentes à procura de uma saída.


Comments:
Cara.. isso foi muito bom viu.. as descrições dos solos .. dos integranbntes dos Ramones.. ate eu que naum sou muito inteirado me indetifikei perfeito com tudo

parabens

essa conta é uma conta que eu criei so pra segurar o nome do meu blog ^^ pra ninguem usar..

libera os comentarios anonymos pro pessoal de fora do Blogger!]
abraços
 
Post a Comment

<< Home

Powered by Blogger