Kung Fu Lounge
Saturday, November 27, 2004
 
Prêmio Cultura de Música
Na porta do Theatro da Paz um conhecido representante do jornalismo corporativo paraense pede socorro. “Pelo amor de Deus, me ajuda. Não conheço ninguém dessa galera e não sei quem entrevistar”. “Simples”, respondo eu, “quem tiver de smoking é artista. Quem tiver de terno é convidado. E quem vier fantasiado é Eloy Iglesias”. Dito isso, lá vai ele atrás do vocalista de uma banda local que acabou de chegar.

Situação paradoxal essa. Em um momento em que os olhos do resto do país começam a se voltar para a música produzida na Amazônia - seja através do viés “exótico” do tecnobrega seja via as conexões digitais do novo underground brasileiro, que tem descoberto bandas como Suzana Flag e Eletrola – uma legião de músicos e compositores permanece ignorada em sua própria cidade, como se o panorama artístico local continuasse dominado pela aridez criativa da indústria do entretenimento.

Uma tensão estática percebida por quem está no comando da rádio e TV Cultura, que nesta noite de quinta-feira promove uma premiação dedicada à música paraense. O que os caras sacaram é que uma legião cada vez maior de gente jovem não era contemplada por nenhum veículo de comunicação. Gente nos seus vinte e poucos anos, situada entre o pop-rock oligofrênico das FMs “descoladas” e a banalidade rebolativa da turma das micaretas, que até então não existia como segmento de mercado. Mas que agora encontra nos veículos de um grupo de comunicação estatal um lugar onde consumir a cultura que lhe interessa.

E aí vale tudo. Do terreirão urbano do Arraial do Pavulagem ao indie-rock do Suzana Flag e Eletrola, incluindo certos equívocos “uôrldi miúsiqui” que insistem em copiar fórmulas esgotadas, como a saturada mistura de música eletrônica com “ritmos regionais”. O medo era que a premiação se perdesse no elitismo que outrora norteava a produção cultural local. Até pela insistência de alguns premiados em se auto-afirmar através de uma brasilidade amazônica quase talebã, que nega ao artista o direito de produzir o que bem entender e reduz a música da região a letras sobre açaizeiros, pupunheiras, igarapés, tacacá e peixe frito. Mas a inclusão do rock, da música eletrônica, de segmentos populares, a premiação da Banda Xeiro Verde e Gabi Amarantos ( a verdadeira diva pop local) cantando Waldemar Henrique em ritmo de brega e acompanhada de uma orquestra deram à festa o seu caráter de verdadeira celebração da música paraense.

Celebração que continua em um complexo chamado Megafun, uma mistura esquisita de parque de diversões para adultos com tenda de música eletrônica. Nem mesmo o desanimado reggae da banda que toca no local consegue conter os ânimos da malta sedenta por se divertir e beber de graça. Curica, dos mestres da guitarrada, dança Bob Marley com a vocalista do Suzana Flag enquanto Eloy Iglesias flana pelo lugar com seu visual “Mad Max encontra Fred Astaire”. Figurinhas carimbadas do jornalismo local, empresários, gente de gravadora, artistas de mentira e de verdade, malas sem alça e penetras, todos pra lá de Bagdá dançando Beyoncé, Jorge Ben, Tim Maia e Noriel Viella, cortesia da DJ que nos salvou da banda de abertura. Ao meu lado, Gordinho, depois de sabe-se lá quantas cervejas, inicia o já famoso número do sapateado irlandês, que culmina num belo stacatto seguido de um perfeito moonwalker, passo de dança celebrizado por Michael Jackson nos anos 80. O povo pára assustado com a performance do rapaz, mas quando ele cisma em subir no palco para fazer um número de break descubro que está na hora de suspender a bebida do cara. No final, todo mundo abraçado cantando “Eu Bebo Sim” e sambando que nem gringo. O líder de um das mais antigas bandas punk de Belém chegando junto e dançando de dedinho para cima, naquele clima de tiozinho em festa de reveillon do Grêmio Literário Português, é o complemento perfeito para a cena.

A festa só termina quando a bebida acaba. Menos para Mestre Curica, que num ataque de humildade fica repetindo para o vocalista da banda Tecnoshow: “Eu toquei no Rio, mas não sou ninguém...não sou ninguém”. Difícil de acreditar. Ainda mais quando sabemos do poder de fogo que o grupo do cara tem quando está em cima do palco, solos mântricos que se traduzem na verdadeira surf music para os surfistas da pororoca.

Cinco horas da manhã e o Megafun vai esvaziando. Hora de ir para casa. Enquanto ouço o Gordinho divagando em uma egotrip sem tamanho – “Eu danço pra caralho, rapaz, danço pra caralho”, declamava ele enquanto dirigia – fico pensando que tipo de ação concreta esse tipo de prêmio é capaz de gerar. A mais imediata e óbvia de todas é a visibilidade, que pode resultar em melhores cachês, patrocínio decente, músicas tocando na rádio sem pagar jabá e a amplificação de um movimento cultural embrionário para o resto do país. Quem sabe no próximo ano, o nosso amigo jornalista corporativo não precise da minha ajuda para identificar as celebridades locais. Enquanto isso espero que a música local continue a ser um bom motivo para festejar. De preferência com os mesmos níveis de diversão atingidos nesta madrugada de quinta para sexta-feira. Toda revolução é bem-vinda. Em especial aquelas nas quais a gente pode dançar.


 
Top ten
Frilazinho para o site da Heroi com os dez piores filmes de ação de todos os tempos. Mais legal que o texto são os comentários dos leitores. Em especial esse aqui: "Se o filme não tiver audio 100% em japones e sem legenda, não vale a pena ver. Mas ter ignorante q adora ver filme dublado ou em ingle com legenda. Macho q é macho vê filme em audio japones sem legenda". Eu realmente queria conhecer o sujeito que escreveu isso. Deve ser uma personalidade fascinante.

Saturday, November 20, 2004
 
Pra ouvir no repeat
"Ficção" - O Delinqüentes é ao mesmo tempo a melhor banda pop e hardcore do Brasil. Mas aí eu falo de hardcore de verdade, feito por quem cresceu ouvindo Cólera, Olho Seco, Insolência Públika, Ratos de Porão, Dead Kennedys e Black Flag. É harcore mesmo e não o tal emo, que nada mais é do que música sertaneja com guitarra distorcida.

"Gouge Away" - Fazia um bom tempo que não pegava um disco dos Pìxies para ouvir. Versão ao vivo tirada da coletânea dupla deles.

"Gigantic" - Essa entra proque aprendi a tocar hoje. Facinho: sol, ré, mi, si, dó, lá, sol. Tocar sem parar até o fim da música.

"Boas Novas" - Vai no Trama Virtual, procura por Suzana Flag, baixa a MP3 e depois me diz o que achou.

"The Monkey" - Para fechar a trip saudosista a música mais contagiante do último CD do Mano Negra.

 
Frase do dia
"Most directors make films with their eyes; I make films with my testicles"
Alexandro Jodorowsky

Friday, November 19, 2004
 
Eu tenho a força!
Quando a gente trabalhava na Play o Matias dizia que eu estava desenvolvendo uma certa obsessão pelo assunto. Devo confessar que acho fascinante. São coisas como essas que fazem a internet valer a pena. Aproveite e clique aqui também para ver o que os jovens de hoje andam aprontando. Ao ver essas fotos fico imaginando como será o concurso de fantasias do Hotel Glória daqui a uns anos.

 
Egotrip
Dá gosto viver para receber um elogio desses. A propósito: "Valdecir" é o apelido que o Tylon me colocou na época em que a gente estudava juntos.

"Valdecir Versolato, um homem à frente de seu tempo e fora de sua geração, sempre nos brinda com pérolas de sensatez quando é para esculhambar com os outros."
Tylon Maués

 
O filho do rato
Alejandro Jodorowsky é o cara. Eu tinha uns nove anos quando meu pai me levou à livraria Jinkings e disse para eu escolher o que quisesse. Fui direto à sessão de quadrinhos. Em plena Ditadura, o velho Jinkings contrabandeava livros de esquerda em meio a caixas de insuspeitos quadrinhos europeus publicados em Portugal. O cara tinha as manhas. Enfiava traduções em espanhol e português de livros do Marx, Engels, Trostky e Mao no meio de álbuns de gente como Moebius, Druillet, Phillipe Caza, Enki Bilal, Quino, Palomo, Plantu e outros grandes nomes das HQs do Velho Mundo. Meu pai comprava os Marx e companhia. Eu ficava com os quadrinhos. Coisa que, aliás, fez eu desenvolver um dialeto meio esquisito com o passar do tempo de tanto ler histórias naquele português estranho.

Foi numa dessas idas à livraria do Jinkings que peguei para folhear um álbum de capa amarela: O Incal Negro - Uma Aventura de John Difool. Não fazia idéia do que era um Incal, mas o livro vinha com o nome de Moebius na capa, que eu curtia das séries Tenente Blueberry e A Garagem Hermética. Foi o suficiente para levá-lo para a casa. E junto com Moebius acabei levando também Alejandro Jodorowsky. As coisas nunca mais foram as mesmas. Mesmo para uma criança habituada às maluquices da turma da Metal Hurlant Jodorowsky era um pouco demais para mim com sua visão cínica e absurda do mundo. Tudo o que fez com Moebius na série do Incal ficou na minha cabeça, da mesma forma que, anos mais tarde, ficariam Thomas Pynchon, Alan Moore, Frank Zappa e Phillip K. Dick.

Revendo El Topo essa semana, deu para entender porque esse foi o filme que levou os irmãos Cohen a se meter com cinema e fez com que John Lennon e Yoko Ono inaugurassem uma sessão da meia-noite em Nova York só para exibi-lo. Em homenagem ao cara, republico aqui uma entrevista que fiz com ele em 2000. Se tiver tempo, ouça aqui uma entrevista dele para uma rádio canadense que é simplesmente hilariante.

O Homem que Caiu na Terra
Entrevista com Alejandro Jodorowsky

Para quem não sabe, Alejandro Jodorowsky é um dos artistas mais criativos dos quadrinhos e do cinema francês. Nascido no Chile em 1929, ele emigrou para a França no começo da década de 60 atraído pela escola de teatro do famoso mímico Marcel Marceau, de quem foi aluno durante algum tempo. No entanto, sua carreira só foi deslanchar de verdade no começo dos anos 70, quando lançou o cult-movie El Topo, sucesso underground que até hoje é exibido em cinematecas ao redor do mundo. Em seguida, iniciou uma bem sucedida carreira de argumentista onde criou, ao lado de Moebius, a fantástica série Incal e o quadrinho-poema Os Olhos do Gato.

Atualmente, Jodorowsky vive mais um momento de glória com o best-seller Metabarão, um álbum de quadrinhos que conta a história de um dos personagens mais conhecidos do Incal, e com o relançamento em DVD de El Topo, Fando y Lis, The Holy Mountain e Santa Sangre, seus filmes mais importantes.

A obra de Jodorowsky é caracterizada por um profundo misticismo e por tramas subjetivas e complexas. Devido a essa ousadia temática e conceitual, muitas vezes ele teve que lidar com o fracasso. É o caso de sua adaptação do livro Duna, de Frank Herbert. Com um roteiro que pouco ou nada tinha a ver com o original - e que, além da fantástica direção de arte de Moebius, contava com o tresloucado Salvador Dali em um dos papéis principais - ela foi boicotada pelos exibidores norte-americanos e nunca saiu do papel.

A primeira vez que eu tive contato com sua obra foi quando ganhei do meu pai um livro da série O Incal. Ao terminar a leitura, fiquei bastante impressionado com a complexidade do roteiro. Você acha que existe espaço para esse tipo de coisa num mundo tão superficial quanto o dos quadrinhos?
Acho que sim. Tanto que, quando comecei minha carreira esse era exatamente meu objetivo: usar os quadrinhos para discutir coisas mais sérias e profundas. Eu domino vários tipos diferentes de arte. Em cada uma delas eu procuro atingir um nível mais elevado de consciência.

Mas será que os quadrinhos podem ser usados para algo mais do que apenas divertir as pessoas?
Claro! Quadrinhos são uma forma de Arte. Qualquer arte oferece infinitas maneiras de se expressar. Não existem artes idiotas e sim artistas idiotas.

Quais são os seu autores de quadrinhos favoritos?
Harold Foster, que criou O Príncipe Valente, e Will Eisner, de The Spirit. Atualmente tenho lido muito os trabalhos de Robert Crumb, principalmente os quadrinhos do Mr.Natural.

Os quadrinhos passam por uma crise financeira muito séria nos dias de hoje. Voce acha que hoje em dia existe espaço para coisas mais experimentais que artistas como você e Moebius fizeram no passado, como, por exemplo, Os Olhos do Gato, um quadrinho que foge dos padrões mais convencionais?
Meu amigo, as pessoas do continente americano (tanto do norte quanto do sul) tem essa idéia de que o mundo se resume aos Estados Unidos. Na França não existe crise alguma nos quadrinhos. A minha série sobre os Metabarões é a quarta colocada no ranking das 50 publicações mais vendidas do país. Ela ja vendeu mais de 400.000 cópias somente este ano! E olha que cada cópia custa cerca de 15 dólares. Crise? Que crise? Este ano dois álbuns meus serão lançados nos Estados Unidos: Metabaron e Technopriests. Estou esperando para ver no que vai dar...

Aqui no Brasil as pessoas conhecem apenas o Jodorowsky quadrinhista e não o Jodorowsky cineasta. Fale um pouco mais sobre sua carreira na sétima arte...
Eu comecei durante os anos 70 e fiz quatro filmes que considero importantes. Todos eles são considerados cult movies, o que garante que eles continuem sendo exibidos até hoje nos cinemas de todo o mundo. Atualmente eu trabalho com um pouco mais de calma e não sinto aquela urgência de produzir tanto quanto antigamente. Fando y Lis, El Topo, The Holy Mountain e Santa Sangre (N.E: infelizmente todos inéditos no Brasil) são os meus trabalhos preferidos. Atualmente estão disponíveis para venda em VHS ou DVD.

Já que estamos falando sobre isso, o que aconteceu com sua adaptação cinematográfica de Duna?
A produtora era francesa e os custos de realização do filme eram altos demais para os nossos padrões. A única maneira de viabilizá-lo era conseguir nos Estados Unidos no mínimo dois mil teatros que se dispusessem a exibí-lo. O problema foi que as companhias de exibição se recusaram a fechar um acordo com a gente quando perceberam que era mais fácil fazer dinheiro roubando minhas idéias para o filme...não sei se você sabe mais foi assim que Alien e Guerra nas Estrelas começaram . Todos eles foram baseados em conceitos criados por mim para Duna.

De onde vem inspiração para compor uma obra tão complexa e cheia de significados?
Ela vem direto do meu subconsciente e também do contato com todo o tipo de informação que chega até mim: quadrinhos japoneses, filmes de terror, séries de TV, filmes de faroeste, quadrinhos, fotonovelas, Tarot, psicoanálise, pornografia, vídeo de heavy-metal, lutas de boxe, competições de luta-livre, corridas de touros, arte trash, misticismo oriental e de tudo o mais que eu observo no dia-a-dia quando estou tomando meu café da manhã...

E quais os seus planos para o futuro?
Atualmente estou com 70 anos e continuo escrevendo como nunca. Se a minha mente e o meu corpo colaborarem comigo, pretendo continuar vivendo e trabalhando pelo menos até os 120 anos. Quem sabe, um dia, eu não estarei sendo entrevistado por seus netos e netas?


Thursday, November 18, 2004
 
Djavan
Início de um texto publicado no jornal O Liberal de hoje:
"Dez entre dez brasileiros já tiveram uma história de amor embalada por alguma música de Djavan".
Eu nunca tive. Detesto quando me metem no meio das coisas. Prefiro aderir ao celibato a ter uma história de amor embalada por uma música do Djavan.

Wednesday, November 17, 2004
 
Disco do dia
Select Cuts From Blood & Fire - O melhor do catálogo de reggae da gravadora de Mick Hucknall, vocalista do Simply Red, revisitado em remixes dub. Horace Andy, Soul Syndicate, The Chantells e muitos outros aparecem em versões esfumaçadas, entortadas pelo pulso firme e grave de gente como The Orb, Stereo MC's e Count Dubullah, o mentor do combo étnico/dançante Transglobal Underground. Mandamentos dub para as novas gerações.

 
Os melhores filmes de todos os tempos da última semana
1 - Vampiros de Almas - Don Siegel
2 - El Topo - Alejandro Jodorowski
3 - A Comilança - Marco Ferreri
4 - Suspiria - Dario Argento
5 - Last House on the Left - Wes Craven
6 - Na Captura dos Friedmans - Andrew Jarecki
7 - Era Uma Vez no Oeste - Sergio Leone
8 - Rastros de Ódio - John Ford
9 - O Despertar da Besta - Zé do Caixão
10 - Vampyros Lesbos - Jesus Franco


 
Blow Up - Depois daquele beijo
A princípio é um filme sobre nada, um fiapo de trama tentando capturar os momentos mais reluzentes da Swingin’ London. Mas pouco a pouco o desencanto com o estado das coisas é revelado nos detalhes da vida de um fotógrafo londrino, um distanciamento progressivo do sentido original de sua arte explícito na maneira rude como trata um grupo de modelos e no nojo que sente dos mendigos que acabara de fotografar para um livro de luxo.

Nos primeiros minutos do filme, Antonioni nos confronta com um bem-montado esquema de convenções sociais e jogos de aparências para em seguida desconstruí-los através de um suposto assassinato, segundos de uma conspiração da qual o fotógrafo acredita ter sido testemunha. Ao ampliar obsessivamente pedaços cada vez menores do memento mori que teria vislumbrado durante um passeio por um parque público, ele subitamente se reencontra com o verdadeiro propósito do seu ofício: a busca febril pelo sentido da vida, por emular a realidade em fragmentos compreensíveis tanto em um nível sensorial quanto intelectual. É na figura de uma arma fumegante e de uma bela mulher, um fantasma sem passado que o engana e seduz, que o fotógrafo, antes um garoto mimado do mundo da moda, reavalia sua relação com a arte e com os seus valores pessoais.

E então um filme aparentemente sem sentido ganha força e se torna um poderoso discurso a respeito de percepção da realidade e do verdadeiro propósito da criação artística, culminando na briga por pedaços da guitarra de Jeff Beck. Destroçada pelo músico e roubada pelo personagem principal depois de uma briga com seus fãs, ela perde o valor segundos depois e termina abandonada em uma calçada qualquer. Conexão que se fecha quando lembramos dos figurinos bizarros que ele revende para as massas em nome do dinheiro no início do filme e a pobreza travestida de arte que divulga em seu livro sobre os mendigos londrinos. Quem determina a moda é quem destitui a pobreza de seu caráter de problema social para transformá-la em objeto de culto para a pequena-burguesia. Aqui, assim como na guitarra de Jeff Beck, o valor simbólico de um objetivo artístico, seja ele uma foto ou um vestido, é maior do que o seu valor real, o que torna pertinente o questionamento sobre os limites que separam arte da farsa desmedida. Ao final, na cena do jogo de tênis com um grupo de mímicos, descobrimos juntos que julgamentos pessoais estão acima de qualquer convenção social e que o mundo nada mais é do que um amontoado de diferentes percepções de realidade, manipuláveis em nome do amor ou do dinheiro. E que a arte só pode ser realmente verdadeira quando é feita por impulso e surge ao acaso, sem a mediação de qualquer forma de controle social e financeiro. Como em algo que surge de uma busca desesperada por um pouco de conforto existencial.

Thursday, November 11, 2004
 
Yeah, yeah, brother!

frog

Voltando a postar aos poucos depois de um mês sem computador. Semana cheia de emoções: Bush reeleito, Arafat morto, Capanema Fashion Week rolando, Dr. Socrates voltando a jogar futebol, casamento de Luciano Huck e Angélica. No rádio hoje, uma bomba: o site Virgulando explica porque Gisele Bündchen não aceitou casar com DiCaprio. O fato mais importante do mundo depois da descoberta da penicilina. Tem que se ligar que o lado bizarro da coisa não cessa. E muita vezes é o aspecto mais interessante.
Como o desenho do Sapo Cantor, do mestre Chuck Jones. Tão existencialista quanto um conto do Camus. A diferença é que o Chuck era bem mais legal e divertido e não torrava a paciência fazendo biquinho. Sapo Cantor está na lista daquelas coisas realmente foda que fazem valer a pena gostar dessa tal cultura pop. É uma fábula sobre o lado negro da existência humana, com o sapo entediado e seu dono vendo suas perspectivas de fama e fortuna irem por água abaixo ao descobrir que o bicho simplesmente só canta para ele. Isso depois de ter gasto suas últimas economias alugando um teatro para exibi-lo à alta-sociedade novaiorquina. Termina louco e falido, ciente de que, tanto no plano natural quanto no plano metafísico, o mundo não tem jeito mesmo. Nem que a vaca tussa ou o sapo cante. E agora todo mundo comigo: "Hello my baby, hello my honey...".



Wednesday, September 22, 2004
 
Não dá para explicar como a coisa começou, mas o fato é que rolava o boato de que Roosevelt Bala daria uma canja no show dos Autoramas. Embora fosse meio estapafúrdia, a notícia tinha um fundo de verdade. Nos três dias que passaram em Belém, Simone, Bacalhau e Gabriel Thomaz não cansavam de repetir que o seu grande sonho era dividir o palco com o susserano do metal, o Rob Halford da Amazônia, o homem que cravou o seu nome a ferro e fogo na cena roqueira nacional ao comandar, no final dos anos 70, o quarteto metaleiro Stress, o grupo que, reza a lenda, teria inventado o thrash metal. Já estava até imaginando uma jam session apoteótica, com os Autoramas e Bala – em carne, osso, cabelos e calça de couro - tocando juntos clássicos do cancioneiro popular como Mate o Réu, Flor Atômica, Oráculo de Judas e a inenarrável A Tua Mãe é Moça, aquela do refrão “A tua mãe é moça/moça moça moça”. Mas, para a minha decepção, Roosevelt Bala não deu as caras na Casa dos Artistas, o local do show dos Autoramas em Belém, frustrando a mim e aos músicos da banda. Estranhos são os caminhos do show business.

Tudo bem. Ao menos o Autoramas subiu ao palco muito bem recomendado por alguns amigos meus que já tinham visto a banda ao vivo. “Puta show foda”, me avisou um colega jornalista. Exatamente o que eu estava precisando. O último grande concerto de rock que eu vi foi a apresentação da John Spencer Blues Explosion no Abril pro Rock de 2001. Cabeludo, barbudo e vestido de couro dos pés a cabeça, um endiabrado John Spencer cuspia melodias certeiras sobre uma base ácida e sinuosa. Talvez fosse algum tipo de alteração sensorial temporária, mas naquele momento o som que saia do palco principal do Centro de Convenções de Olinda me soava extremamente sexy, um devaneio funk rock alimentado por mais de 50 anos de música negra norte-americana. Para mim, que na noite anterior havia dançado até de manhã em um baile jungle comandado pelos DJs e MCs do Asian Dub Foundation e andava meio descrente no poder de cura do rock’n’roll, aquela apresentação em particular representou o renascimento de um estilo que, até então, julgava morto, oscilando entre a boçalidade do rock de bermudas do Charlie Brown Jr e a lenga-lenga emotiva do já combalido britpop. Mas John Spencer me fez crer que o estilo ainda tinha jeito, um Jim Morrisson garageiro reencarnado para os anos dois mil, embriagado, caindo pelas tabelas no camarim depois de incitar a galera com gritos de “blueeeeeeees exploooooosion!!!” e “rock’n’rooooooooool!!!”. Mesmo os Textículos de Mary, que com seu circo de horrores gay pegou os presentes de surpresa em um espetáculo shock rock difícil de assimilar em um primeiro momento, pareceu apenas uma pálida lembrança diante do poder de fogo do trio novaiorquino.

Dias estranhos aqueles, que agora voltam à memória enquanto os Autoramas fazem o maior esporro no palco. Como toda boa banda de rock, o grupo se apóia em fórmulas já consagradas. E embora não traga nada de novo, supera suas limitações técnicas e artísticas com vontade de tocar e uma cativante presença de palco. Gabriel Thomaz é o frontman que os garotos veneram e as meninas querem tietar depois do show. Simone, a baixista de gestos estudados que nasceu para bater cabeça em uma banda de rock de arena. Bacalhau, um pouco mais discreto, segura a onda mostrando uma variedade musical que, talvez pelas limitações de sua banda anterior, o Planet Hemp, eu jamais supunha que ele fosse capaz de possuir.

Impressiona ver como uma banda cuja carreira permanece ligada ao inconstante mercado do rock independente brasileiro consegue fazer a sua música chegar tão longe. De uma maneira meio pernóstica até, dá para afirmar que uma apresentação dos Autoramas é uma verdadeira hit single pack. Legal ver o povo pulando e cantando junto Carinha Triste, Paciência, Eu Era Pop e Auto Destruição, essa última uma parceria involuntária com Jaime Catarro (o que causou uma certa estranheza à baixista Simone, ah se ela soubesse que o cara é tão importante para o rock local quanto o Roosevelt Bala). No bis, 1,2,3,4, do Little Quail, ex-banda de Gabriel cujo estouro nacional foi abortado após uma quase-apresentação no Close Up Festival de 1996 ao lado de Cypress Hill, Marky Ramone, Bad Religion e Sex Pistols. Da sala de imprensa da pista de atletismo do Ibirapuera, onde o festival foi realizado, vi a banda descendo pelo backstage poucos minutos antes do que poderia ser a sua consagração definitiva em palcos paulistanos. Enquanto isso, ninguém da produção sabia explicar ao certo o motivo do cancelamento do show. Em seguida o Little Quail encerraria as atividades. Oito anos depois, ver os Autoramas tocando um cover do ex-grupo de Gabriel Thomaz serve de consolo para quem, naquele dia oito de novembro de 1996, esperava testemunhar o nascimento de um novo fenômeno do rock brasileiro e sobreviver para contar a história.

História que, de uma maneira meio torta, continua nesta noite em Belém. Mas não com o poder transformador inicialmente atribuído a ela A pouca quantidade de pessoas na platéia é a prova de que o rock continua sendo um negócio inviável dentro do restrito cenário musical paraense. Falo de rock de verdade, não de festivais sem imaginação, bandas cover e armações de grandes gravadoras, especialistas em vender revolta e atitude para adolescentes em processo de auto-afirmação. Ao subir no palco para anunciar os Autoramas, o Corujinha bradou que aquele seria o início de um novo momento para a música paraense. Um exagero, evidentemente. O que vimos foi apenas um sinal de que as coisas podem começar a dar certo por aqui. Isso se, além de um produtor maluco o suficiente para bancar sem patrocínio a vinda de uma banda independente a Belém, o tal público roqueiro da cidade acredite que vale a pena prestigiar o underground local. “Nada pode parar o rock’n’roll”, estava escrito no panfleto que anunciava o show. Nada mesmo, exceto talvez o desinteresse de quem consome música levado apenas por modismos de ocasião.


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